Thursday, July 07, 2005

from: Diário de Notícias 07.07.05

http://dn.sapo.pt/2005/07/07/artes/o_misterio_supletivo.html
Ministério
da Cultura

O mistério supletivo



de:Pedro Mexia

Durante décadas, num contexto de alguma escassez cultural, a Gulbenkian foi o nosso Ministério da Cultura (MC). Basta lembrar a importância que teve a programação de cinema, uma espécie de embrião da actual Cinemateca. Já em democracia, a Gulbenkian continuou mais importante que a Secretaria de Estado e depois o Ministério da Cultura tinha mais dinheiro, mais prestígio, mais currículo.Só com o peso político que Manuel Maria Carrilho emprestou ao MC a situação se atenuou (e eu sou insuspeito de admirar a doutrina Lang). Instituições como a Culturgest, o CCB e Serralves também aumentaram imenso a oferta cultural. A Gulbenkian, nalgumas actividades, tornou-se dispensável.É certo que (por exemplo) no campo da música erudita ainda consegue os cartazes mais impressionantes. Mas não se pode argumentar que se não existisse a Gulbenkian não existia música erudita. Em muitos domínios, o "ministério" é agora um ministério supletivo.A nova administração da Gulbenkian assumiu claramente a necessidade de mudanças. Sá Machado esclareceu em diversas entrevistas que a Fundação ia continuar a promover bolsas e acções de formação mas que aos poucos descartaria alguma programação própria.O encerramento do Ballet Gulbenkian é um desses casos. Mesmo com a natural contestação, convenhamos que no caso da dança há outras companhias que continuam o legado, em novos modos de articulação com a Gulbenkian. Noutras áreas a situação é mais problemática.Se, como se especula, a Gulbenkian acabar com a Colóquio/Letras (como acabou com a Colóquio/Artes), o que lhe sucede? O Estado não tem esse pelouro. Os privados não estão interessados no ensaio literário. Ninguém lê as publicações universitárias. E as revistas de geração espontânea duram cinco ou seis números.A Colóquio, mesmo com a actual periodicidade imprevisível, dificilmente pode ser substituída. Pela importante rede de colaboradores (incluindo estrangeiros), pelos indispensáveis números temáticos, pelo requinte gráfico único. É um produto minoritário mas muito sólido. E que só pode ser mantido por uma instituição que não faça contas de tostões. Esperemos que não seja a próxima vítima.

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